ESQUEÇAM TUDO O QUE LHES DISSERAM
Uma palavrinha antes de passarmos ao que interessa: não vou falar das minhas ex-namoradas americanas. Não vou! Quanto muito, posso dar uma pistazita ou outra. Por exemplo, se eu quisesse contar alguns segredos acerca da actriz com quem contracenei numa cena de multidão de "A Star is born" - não quero, mas se quisesse - eu nunca diria "a Barbra Streisand"; diria sim "aquela cantora feiosa do nariz grande". É claro que os leitores podiam pensar que eu me estava a referir à Liza Minnelli, ou mesmo à Dulce Pontes, mas isso é um risco que um cavalheiro tem de correr.
Agora sim, a crónica. A minha sobrinha Ruth Sónia, que tem 16 aninhos e é a melhor aluna da turma, convidou-me para ir ver um filme português, "Esquece tudo o que te disse". Como eu até tinha o sono em atraso, resolvi fazer-lhe companhia. E não é que me trocaram as voltas? O realizador, um moço novo e muito talentoso, chamado António Ferreira, conseguiu manter-me acordado durante os 108 minutos do filme.
Valeu a pena enfrentar o trânsito, a chuva e até a casa de banho do cinema King só para ver o trabalho do António Capelo e da Custódia Galego. António é inesquecível no papel de Messias, um dentista que na realidade quer é ser ilusionista; Custódia é Felizbela, uma dona de casa burguesa e frustrada, que só procura um pouco de paixão na sua vida. Juntamente com Amélia Corôa (Bárbara), uma adolescente com tendências piromaníacas, fazem um triângulo muito pouco amoroso. Se metermos neste saco um velho simpático mas um pouco tarado, um bode com problemas de afirmação sexual e um jovem chamado Pankas, que leva sempre tudo até ao fim (especialmente os orgasmos), temos uma daquelas comédias dramáticas que no fim deixam um sabor agri-doce. Tão agri-doce que até há uma cena num restaurante chinês.
A minha sobrinha tem uma teoria para explicar o nome do filme. O realizador começou por estudar cinema em Portugal e depois foi fazer o mesmo em Berlim. A primeira coisa que os professores alemães lhe recomendaram deve ter sido: "Esquece tudo o que te disseram". Eu não sei onde é que a miúda vai buscar estas ideias.
O filme tem alguns dos mais divertidos diálogos escritos cá na terra. "Não é cabra ? é bode", uma frase repetida a toda a hora, vai ficar para a posteridade ao lado do "Ó Evaristo, tens cá disto?". Apesar disso, "Esquece tudo o que te disse" parece ser um daqueles filmes que misteriosamente se escreveram a si próprios. Pelo menos a julgar pelo seu site na Internet - andei lá às voltas e não encontrei nem uma vez o nome do argumentista César Santos Silva...
Está claro que nem tudo é perfeito. O António Capelo não precisava de se despir completamente na cena do consultório; a Amélia Corôa tem uns anitos a mais para fazer de adolescente problemática; e o incêndio que ela ateia em casa dos pais faz lembrar vagamente os churrascos que o meu cunhado Elias organiza aos domingos.
Mas o único problema sério do filme é ser acerca de um tio que se apaixona pela sobrinha incendiária (incendiária em sentido real, não em sentido Bárbara Guimarães) e acaba literalmente por baixo dela. Aliás, essa deve ser a posição favorita do realizador - sempre que há sexo no filme, é com a mulher por cima. Quando saímos da sala a minha sobrinha Ruth Sónia começou a lançar-me uns olhares lúbricos. Eu preferi fingir que não entendia, mas logo que chegámos a casa fui esconder os fósforos, pelo sim pelo não. Ou, como nós dizíamos lá em Hollywood, "by the yes by the no".
OS FILMES DO JOHN
As críticas de cinema de John Snows, ex-namorado das estrelas de Hollywood
terça-feira, fevereiro 25, 2003
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JOHN SNOWS, EX-NAMORADO DAS ESTRELAS DE HOLLYWOOD
John Snows é o pseudónimo escolhido por João Neves, um talentoso actor português que fez uma longa e marcante carreira como figurante em Hollywood.
A sua estreia foi como um dos homens-macaco nas cenas iniciais de "2001: uma odisseia no espaço"(1968), mas acabou por ser cortada por questões sindicais. Podemos vê-lo também (se estivermos realmente atentos) em cenas de filmes como "O Padrinho"(1972), "Taxi driver" (1976), "Guerra das estrelas"(1977) - onde esteve quase a ser escolhido para o papel de Chewbacca - e muitos outros.
Ao longo dessa fulgurante carreira catrapiscou muitas candidatas a actrizes, actrizes e até algumas estrelas de Hollywood. Como prova disso tem uma caixa cheia de fotografias (John com M.S., John com K.B., John com M.P., John com D.H., etc...), que ele mostra com orgulho, e inúmeras histórias, que conta com todos os detalhes picantes a quem tenha a paciência de o ouvir.
John Snows tem hoje mais de 30 e menos de 56 anos e vive com uma irmã, o cunhado e um monte de sobrinhos e sobrinhas na Venda do Pinheiro ("na segunda casa mais famosa do País", como ele gosta de dizer). Deixou-se de participações em filmes ("um actor deve entrar com ganas e sair com dignidade") mas já propôs à SIC seguir "A casa do Toi" com "A casa do John". Entretanto mata o bichinho do cinema escrevendo crónicas sobre os filmes que vai vendo (ou alugando no vídeoclube).
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